O debate sobre os limites éticos e profissionais da Inteligência Artificial na indústria do entretenimento tomou conta do primeiro dia do Imagineland 2026, em Campina Grande. Durante a coletiva de imprensa do anime Tokyo Revengers (Disney+), o elenco de vozes brasileiras expressou grande preocupação com o avanço de tecnologias sintéticas na arte. Questionados sobre o tema, os atores Bruno Linhares, Bruna Laynes e Luiz Sérgio Vieira detalharam os riscos trabalhistas, o uso indevido de vozes na internet e a perda da essência humana na atuação.
O risco para a adaptação regional e o mercado de trabalho

O dublador Bruno Linhares destacou que, embora seja pessoalmente contra a substituição de pessoas por máquinas, a entrada da IA em alguns setores é inevitável. Ele mencionou que vídeos institucionais e traduções automáticas para múltiplos idiomas já estão sendo dominados por vozes artificiais devido à praticidade. No entanto, Bruno enfatizou o grave impacto trabalhista dessa automação e cobrou que a sociedade regulamente o setor para evitar danos maiores.
Para o ator, o maior risco para a dublagem clássica não é a clonagem de profissionais brasileiros de renome, mas sim a tecnologia de clonar a voz do ator original – em inglês ou japonês, por exemplo – para falar em todos os idiomas. “Perde-se uma coisa muito legal do nosso trabalho, que é a adaptação. Essa que a gente chama de regionalizar as coisas“, explicou Bruno. Ele reforçou que a obra audiovisual é um trabalho coletivo, enriquecido pelas vivências de tradutores, diretores e dubladores locais, algo que se perde quando uma máquina faz a transposição sintética.

Clonagem de voz não autorizada e deepfakes
A dubladora Bruna Laynes, que iniciou a carreira ainda na infância, focou no aspecto ético e na representação da vida através da arte. “A arte ela é pra representar a vida humana, então não faz sentido você botar uma máquina pra representar a vida humana“, afirmou.
Bruna compartilhou a sua frustração ao encontrar vídeos na internet onde a sua voz foi clonada por Inteligência Artificial a partir de filmes que dublou. Segundo ela, essas “deepfakes” de áudio são frequentemente usadas em vídeos motivacionais com textos sem sentido, enganando os fãs que acreditam ser a atriz falando. Além do incômodo pessoal, ela alertou para o risco profissional dessa prática: “Se chega num cliente, por exemplo, a Disney, eles podem ficar chateados comigo por uma coisa que eu nem fiz… é muita loucura“, desabafou.

Fechando a discussão, Luiz Sérgio Vieira fez uma forte defesa do componente espiritual e sensível da profissão. O ator declarou-se totalmente contra o uso de IA para substituir qualquer atividade artística. “Qualquer atividade humana que depende da nossa capacidade sentimental, da nossa capacidade espiritual, da nossa sensibilidade, não deveria ser delegada ou substituída por um processo mecânico e genérico“, cravou o dublador.
Embora reconheça que a tecnologia trouxe evoluções históricas para o maquinário dos estúdios e que a IA possa auxiliar em tarefas mecânicas — como ajustes labiais e rascunhos de tradução —, Luiz Sérgio repudiou a substituição da interpretação humana. Para o ator, trocar dubladores por vozes sintéticas é, acima de tudo, “um desrespeito até com o público“, que merece consumir um conteúdo feito “de um humano para outro humano”.
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