O choque de gerações no Açude Novo: A Calango Morto faz sua estreia no FICG

Como uma banda de garotos superou o preconceito dos veteranos para incendiar o Açude Novo? Com atitude punk, guitarras pesadas e raízes cravadas no Nordeste, a Calango Morto fez o chão tremer no Festival de Inverno. Apoiados pela filosofia de inclusão do produtor Xico Netto, eles mostram que a oxigenação da cena musical campinense não é mais promessa, é realidade.

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O relógio marcava o ritmo de um domingo histórico no Parque Evaldo Cruz. Com quase dois anos de formação, a banda Calango Morto subiu ao palco do 51º Festival de Inverno de Campina Grande (FICG) carregando o peso e a ousadia da nova geração. Quando os primeiros acordes rasgaram o ar, não havia espaço para hesitação: a banda abriu os trabalhos metendo o pé na porta com a fúria de Charlie Brown Jr., a genialidade de Chico Science e a crueza punk de “Veraneio Vascaína”, do Aborto Elétrico. Era o recado de que a juventude da cidade exige o seu lugar ao sol, ou melhor, sob os holofotes.

À frente desse furacão sonoro está Isaac Furtado, o vocalista que traduz em drives e melodias a energia de uma juventude que se recusa a ser escanteada. Logo após descer do palco, ainda absorvendo a adrenalina daquela que considerou a melhor apresentação da banda, Isaac abriu o jogo sobre a dura realidade de ser jovem na cena alternativa, a construção da identidade do grupo e a batalha por respeito.

A reverência ao rock nacional e a identidade local

Ao contrário da fórmula fácil de apostar apenas em sucessos gringos, embora o System of a Down tenha marcado presença com peso, a Calango Morto faz questão de fincar sua bandeira no Brasil. No repertório preparado para o festival, a balança pendeu quase totalmente para o rock nacional. Foram oito faixas nacionais e apenas três internacionais, passando também pela atitude inconfundível dos Raimundos.

A gente gosta de exaltar nossas inspirações. O som deles é magnífico, é uma coisa que todo brasileiro tem que escutar. É valorizar o que é nosso“, defende Isaac ao ser perguntado sobre a escolha das musicas.

Essa valorização se estendeu até as raízes geográficas da banda. Em um dos momentos de maior sintonia com a plateia, a banda tocou “A Praia de Campina”, música lançada em agosto de 2025 pela conterrânea Zepelim e o Sopro do Cão. A escolha não foi por acaso. “É uma música que retrata nossa cidade. Todo mundo que vem pros rolês de rock em Campina conhece. Gera identificação“, explica o vocalista. “Não somos só músicos, a gente é amigo de todo mundo que está ali na plateia. A gente se tromba nos rolês de rock, então essa proximidade com o público é muito boa.

As composições próprias também entraram em cena com naturalidade. A banda apresentou as faixas “O Chão Tremeu” e “Resquícios“, guardando a promissora “Fim do Riacho” para os próximos shows. Em vez de anunciar as músicas autorais como um evento isolado, a estratégia da banda é tocá-las “como mais uma música, como qualquer outra, para as pessoas se acostumarem“, preparando o terreno para o futuro lançamento nas plataformas digitais.

Foto: Rafael Costa

A luta por espaço na cena local

Apesar da catarse no Açude Novo, os bastidores da cena musical campinense escondem barreiras que a Calango Morto precisa quebrar diariamente. Questionado sobre a aceitação da banda pelas gerações mais velhas de músicos da cidade, Isaac abandona o tom celebrativo e adota a franqueza de quem conhece a dor do boicote.

Falar a verdade, há muito preconceito com a nossa banda“, desabafa. Embora a recepção no FICG tenha sido impecável, o histórico de desrespeito por parte da velha guarda é uma constante. “Hoje foi uma das raras exceções em que a gente foi tratado de uma forma igualitária. Muitas bandas do pessoal mais velho negligenciam a gente, nos botam para tocar em horários que não são bons. Já chegaram a botar a gente num festival que era pra começar às duas horas da tarde, e nos colocaram para tocar ao meio-dia. Não tinha ninguém.

Essa tentativa de invisibilizar o talento jovem não desmotiva Isaac; pelo contrário, alimenta a convicção do vocalista sobre a capacidade técnica de seus “irmãos” de banda. Rejeitando os holofotes para si, ele faz questão de exaltar o esquadrão que sustenta a Calango Morto.

“Muitas bandas tratam a gente como se fôssemos menores do que realmente somos. Mas nós temos muita qualidade técnica. Eu não vou falar de mim, mas os outros integrantes são músicos de mão cheia. Luiz é o melhor baterista que eu já vi na minha vida, sem sombra de dúvidas. Felipe é um guitarrista incrível, o João Gabriel tem uma guitarra muito sólida e um backing vocal muito bom. E o Correia tem uma criatividade no baixo que eu nunca vi em uma pessoa da idade dele”, declara.

O triunfo da nova geração e a visão do Coletivo Rock

A inclusão da Calango Morto em um palco de excelência dentro do FICG simboliza uma vitória definitiva para a juventude da cidade. E essa oportunidade não caiu do céu; ela é fruto direto da visão de Xico Netto, idealizador do Coletivo Rock. O produtor enxerga a presença de bandas jovens não como um favor, mas como a principal ferramenta de sobrevivência da cena local.

“Eu prezo muito, como produtor, abrir espaço para as novas bandas, porque é isso que faz o rock oxigenar“, declarou Xico ao avaliar o impacto da Calango Morto no festival. Para o veterano, garantir o palco para a nova geração é uma obrigação ética de quem produz cultura. “A cada geração, o público vai se renovando. O produtor tem que ter a obrigação de abrir espaço, porque aí o cara se anima, forma uma banda, vai estudar música, desenvolve as faculdades mentais… A música tem esse poder de abraçar esses jovens, dar novas oportunidades e tirá-los de coisas como as drogas e a bandidagem.”

Com o som visceral da Calango Morto ecoando no Açude Novo, amparado pela filosofia inclusiva do Coletivo Rock, a tão sonhada oxigenação musical deixou de ser apenas um discurso. Ela tomou forma, forçando a velha guarda a aceitar que o chão estremeceu e a juventude campinense pode tomar, por direito, as rédeas do rock na cidade.

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