O domingo (23) entrou para a história cultural de Campina Grande. O Parque Evaldo Cruz (Açude Novo) foi tomado por uma multidão que provou, de uma vez por todas, que o rock feito e consumido na Rainha da Borborema não se limita a um único nicho. A maratona musical promovida pelo Coletivo Rock dentro do 51º Festival de Inverno (FICG) foi marcada pela casa cheia, entregas viscerais no palco e, acima de tudo, pelo respeito mútuo entre as mais variadas tribos e vertentes do gênero.
Para Xico Netto, produtor responsável por capitanear o Coletivo, ver o parque superlotado foi a materialização de um sonho e a maior recompensa pelo seu trabalho. “Isso é o que me motiva a viver o rock’n’roll. Há dois anos, foi plantada a semente de trazer o rock para dentro do Festival de Inverno. O resultado é esse: todo mundo curtindo. Tentei colocar várias vertentes do rock pra não ficar uma coisa massiva, batendo na mesma tecla“, explicou o produtor, celebrando a consolidação absoluta do projeto.
E a aposta na pluralidade funcionou com perfeição. O público passeou pacificamente pelo pop rock, darkwave, thrash metal, hard rock e ritmos regionais ao longo de mais de seis horas de música.

A tarde do Pop ao Hard Rock
A maratona distorcida começou às 16h com a energia de Vital e Sua Banda, que celebrou o rock nacional e surpreendeu a plateia com clássicos do Nirvana. O momento de maior catarse da abertura, no entanto, foi o coro absoluto do público durante a execução de Mulher de Fases, hit dos Raimundos.
Logo em seguida, a Nath Band assumiu os microfones elevando os decibéis. O grupo entregou interpretações poderosas de Halestorm (com Still of The Night), hits do Bon Jovi e incendiou o parque com a atitude hard rock de Welcome to The Jungle, do Guns N’ Roses. Dando continuidade à viagem pelas décadas passadas, a banda Radial Leste guiou o público por uma atmosfera mais nostálgica e melódica, executando obras-primas como Enjoy the Silence (Depeche Mode) e Another Brick in the Wall (Pink Floyd), além de sucessos marcantes do Roxette.


O peso Britânico e as sombras da Paraíba
Quando o fim de tarde se aproximou, o peso tomou conta do Açude Novo. A Phantom of The Dark entregou um tributo irrepreensível à lenda do heavy metal britânico, cantando os maiores clássicos do Iron Maiden para a alegria dos metaleiros presentes.
Em um dos momentos mais autorais e atmosféricos do festival, a banda Noturna Régia trouxe o rock gótico e o darkwave da Paraíba para o palco. Com letras poéticas e arranjos densos totalmente em português, o grupo hipnotizou a plateia ao apresentar as suas faixas originais.


Deuses do Metal
A sexta atração da noite foi a Project X, banda do próprio produtor Xico Netto. Assumindo as guitarras, ele e seus companheiros de banda fizeram uma viagem pelos “deuses do metal”, como ele mesmo define. O repertório transitou por Judas Priest, Angra e Queen, além da presença obrigatória do Iron Maiden. Mas o momento que fez o Açude Novo vir abaixo de verdade foi o encerramento épico com Pegasus Fantasy, imortalizada na voz de Edu Falaschi como o tema de abertura do anime Cavaleiros do Zodíaco, cantada a plenos pulmões por várias gerações de fãs.

A nova geração e o encerramento clássico
Representando o sangue novo da cena campinense, a Calango Morto provou que a juventude não tem medo de misturar referências. Eles abriram o show com a fúria de Charlie Brown Jr., Chico Science e Veraneio Vascaína (do Aborto Elétrico), mas também homenagearam Campina Grande tocando “A Praia de Campina”, sucesso recente da banda local Zepelim e o Sopro do Cão. Para mostrar sua força autoral, a banda ainda levantou o público com faixas próprias como “O Chão Tremeu” e “Resquícios”, consolidando seu som único que mescla distorção e suingue nordestino.


Para fechar a noite com excelência, a banda Dr. Blazh assumiu o palco como uma verdadeira máquina do tempo do rock pesado. O grupo encerrou a maratona do Coletivo Rock entregando uma sequência implacável de clássicos sagrados, passeando por hinos do Iron Maiden, Stratovarius dentre outros.
O domingo de guitarras do Festival de Inverno provou que a cena independente não só resiste, como sabe conviver em harmonia. Do goticismo autoral aos hinos de anime, o rock de Campina Grande mostrou que sua maior força reside, justamente, em sua infinita diversidade.
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