O Voo no vazio: Como um brinquedo inspirou o disco Biplano de Toninho Borbo

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Foto: Val da Costa
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Entre a memória de um pai piloto, os discos de Bossa Nova da mãe e os livros de antropologia, o músico campinense lança seu quinto álbum, “Biplano”, e traduz a solidão, a bagagem e a beleza de trilhar os próprios rumos.

O cheiro de combustível de aviação e o calor das tardes de sábado no aeroclube de Campina Grande formam o cenário de uma das memórias mais antigas de Toninho Borbo. Ali, um menino de cinco anos, inquieto por natureza, observava o céu enquanto o pai pilotava um Cessna 170 para saltos de paraquedistas. Numa tentativa de aquietar o garoto, o pai lhe entregou uma pequena maquete: um biplano militar verde, com uma das partes quebrada.

O menino pegou o aviãozinho, brincou e o levou para casa. O que ele não sabia é que aquele brinquedo não serviria apenas para acalmá-lo naquela tarde, mas se tornaria, décadas depois, a grande metáfora de sua vida e o motor conceitual de seu quinto disco de estúdio.

Foto: Val da Costa

Hoje, segurando seu violão e com um celular abarrotado de rascunhos musicais inacabados, o homem formado em Ciências Sociais olha para trás para entender o próprio trajeto. “Biplano”, a obra que marca seu momento atual, é o atestado de que um filho herda as asas do pai e os planos da mãe, mas, no fim das contas, é o único responsável por pilotar a própria alma.

“Eu queria prestar uma homenagem, falar um pouco, não diretamente dos meus pais, mas essa memória puxa a ideia de que a gente se dá nos planos da mãe, mudando os seus planos, e a gente erra os rumos do pai“, reflete o músico. A conclusão dessa herança dual ele resume com precisão poética: “A gente é um biplano que faz o nosso próprio voo no vazio“.

As duas asas da herança

O conflito central de Toninho como artista sempre foi equilibrar a reverência ao que recebeu em casa com a necessidade de criar a própria identidade. A carga afetiva e musical que permeia “Biplano” vem diretamente de suas raízes. De um lado, o pai, que tocava violão e teclado; do outro, a mãe, cantora gospel que o alimentou na infância com vinis de Tom Jobim e CDs de Bossa Nova.

Capa do disco Biplano

Para honrar essa herança, ele fez questão de eternizar o pai até nos detalhes mais sutis da identidade visual do novo álbum. A capa, concebida pelo amigo e cineasta Milson Roberto, traz as cores azul, branco e laranja (a preferida do pai), e estampa o prefixo exato daquele antigo Cessna 170 de sua infância: PT-DZH.

Musicalmente, o disco é a arena onde essas forças se encontram. “É o disco em que eu coloco esses dois universos musicais que eu separo dentro de mim. A música que vem do Tom Jobim, do João Gilberto, para as outras coisas que eu escuto de 2000 pra cá“, explica. “A música pop mundial se misturou com suas localidades. O rock e a música eletrônica puxavam a regionalidade da Paraíba. Eu tento ser um cara com expressões mais ligadas à contemporaneidade, mas acho que ainda sou muito MPB.“

As fotos de divulgação do álbum foram produzidas pela fotojornalista Val da Costa e a concepção de capa feita pelo cineasta e designer Edmilson Roberto. E a direção artística do álbum ficou por conta do próprio Toninho Borbo. 

Foto: Rafael Costa

O sociólogo com um violão

Se a música veio de casa, a lente através da qual Toninho enxerga o mundo veio da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). O despertar antropológico ao ler Claude Lévi-Strauss durante as aulas de Ciências Sociais transformou o músico em um tradutor da condição humana.

Esse imbricamento entre sociologia e arte fica evidente nas faixas de “Biplano”. A música “Cuscuz, Manteiga e Fé” vai além da cultura popular para abordar as feiras sob uma ótica social; “Sobre o Abissal” trata de invasões e do “frio da febre”. Mas é em “Só Alma” que o lado pensador do artista atinge seu ápice de vulnerabilidade. “O homem se vê sozinho, não tem outro animal que consiga criar símbolo“, sentencia.

A quebra da solidão e os “frankensteins” engavetados

Apesar da profundidade de suas composições, Toninho Borbo desmistifica a ideia do artista iluminado pela fluidez constante. Em um ecossistema musical dominado pela hiperconexão e pela urgência de redes sociais como TikTok e YouTube, ele confessa seu descompasso, analisando o cenário com a frieza pragmática de um pesquisador: “Hoje a gente tem uma perspectiva de performance maior do que de consumo puro de música. O artista tem que criar uma história, um enredo, uma narrativa“.

Ele próprio, no entanto, opera em outra rotação. “Fluidez criativa talvez não. Eu sou um sujeito um pouco lento para compor. Apesar de existirem vários ‘frankensteins’ engavetados aqui no iPhone, inúmeros, muitas músicas interminadas“, revela, desnudando os bastidores de sua criação.

Foi exatamente essa natureza reclusa que quase o isolou em seu próprio cockpit. O ponto de virada veio através de um alerta sensível de sua parceira de vida, Val. “A Val sempre me falava que o trabalho era muito só. E aí ela observou bem“, admite.

Toninho Borbo em show no Festival de Inverno de Campina Grande – Foto: Rafael Costa

A partir dessa constatação, Toninho decidiu abrir as portas de sua música. O voo no vazio ganhou companhia. As participações especiais entraram no projeto não por estratégia comercial, mas pelo “clima de amizade e de trazer texturas diferentes”. No disco, ele divide o microfone com a potência de Chico César, a força da cantora preta Sandra Belê, a voz grave de Nívea Soares, além de nomes como Seu Pereira, Silvério Pessoa e Luiz Kiari.

Ao misturar a Bossa Nova de sua mãe, a memória do avião de seu pai e as análises sociais de sua formação, Toninho Borbo construiu em “Biplano” o seu diário de bordo definitivo. Ele pode até se considerar lento e ser dono de um celular cheio de canções incompletas, mas prova que, quando finalmente decide alçar voo, sabe exatamente como preencher o vazio com significado.

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