Entre o xaxado e a emoção: Kell Smith consagra noite do Festival de Inverno com tributo ao nordeste e clássicos da MPB

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Na noite deste sábado (22), o Parque Evaldo Cruz foi palco de uma apresentação apoteótica e inesquecível. A cantora Kell Smith, uma das atrações mais aguardadas do 51º Festival de Inverno de Campina Grande (FICG), entregou muito mais do que o repertório de sua turnê “Latino-Americana”. Em uma noite marcada pela conexão genuína, a artista paulista reverenciou as raízes da cultura local, transformando o show em uma grande celebração da música nordestina e da humanidade.

O público, que já aguardava ansiosamente pelos sucessos autorais da cantora, foi surpreendido ao ser embalado por clássicos regionais. Mostrando enorme versatilidade, Kell incluiu em seu setlist canções imortais como “Homem com H”, sucesso na voz de Ney Matogrosso, além de “Eu Só Quero Um Xodó” e “De volta pro meu aconchego” clássicos de Dominguinhos.

A energia contagiou o parque quando a artista entoou “Feira de mangaio” e o hino “Asa Branca”, momento em que se entregou à cultura local e arriscou passos de xaxado no palco. A reverência foi coroada com uma declaração apaixonada da cantora ao microfone: “Viva a música nordestina, a melhor música do mundo!”. A fala incendiou a plateia, que ovacionou a artista e passou a gritar seu nome em coro. O clássico tema do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” também integrou a seleção nostálgica da noite.

Foto: Rondinelle De Paula

Samba, MPB e o “hino nacional” das multidões

A pluralidade do repertório continuou ditando o compasso da apresentação. Kell passeou com maestria por obras-primas da MPB, entregando versões intensas da visceral “Carcará” e de “O Bêbado e a Equilibrista” — mais um aceno comovente à sua ídola Elis Regina. O balanço tomou conta do parque com “Meu Ébano”, de Alcione, e com uma inesperada e envolvente roupagem reggae para “Zóio de Lula”, do Charlie Brown Jr., além de reacender a veia nordestina com “Morena Tropicana”.

O espaço para a sua própria produção autoral também teve vez com as faixas “Mudei” e a contundente “Samba da Zenaide”, conhecida por levantar a bandeira contra a violência doméstica. Reforçando sua premissa de valorizar os talentos locais, Kell Smith convidou ao palco a cantora paraibana Edra Véras, e juntas dividiram os vocais em um dueto potente de “Não Deixe O Samba Morrer”. Para coroar a interação com os fãs, a artista protagonizou um momento de pura descontração: ao pedir seriedade para que a banda tocasse o “Hino Nacional Brasileiro”, os primeiros acordes que ecoaram foram os de “Evidências”, clássico sertanejo que arrancou risos e foi cantado a plenos pulmões pela multidão.

Foto: Rondinelle De Paula

Além do tributo regional e de emocionar os fãs com o seu sucesso “Girassol”, a apresentação teve momentos de profunda reflexão. Antes de interpretar o clássico “Maluco Beleza”, de Raul Seixas, Kell Smith fez um discurso contundente citando a psiquiatra Nise da Silveira, figura histórica da luta antimanicomial no Brasil.

“Os artistas e os loucos mergulham nas mesmas águas, mas são os artistas que conseguem retornar delas. Muito obrigada por me trazerem sempre de volta”, declarou a cantora, emocionada. Em um toque de contemporaneidade, ela celebrou a arte como um pilar da conexão interpessoal: “Muito obrigada por me fazer acreditar. Num momento de inteligência artificial, a gente aqui fazendo nossas coisinhas de humanos… que delícia dividir isso com vocês”.

O clímax do espetáculo ocorreu quando Kell entoou o seu maior hit, “Era Uma Vez”. A faixa, que consolidou a artista no cenário nacional e acumula centenas de milhões de visualizações na internet, foi cantada a plenos pulmões por uma multidão emocionada.

Ao se despedir, o público campinense deixou claro que a noite ainda não havia acabado. Aclamada aos gritos de “mais um”, Kell retornou ao palco para o aguardado bis. A canção escolhida para fechar o evento com chave de ouro foi “Como Nossos Pais”, composição magistral de Belchior eternizada na voz de Elis Regina. A escolha do encerramento soou poética e simbólica para a artista, que tem a obra de Elis como sua maior referência musical e porta de entrada para a Música Popular Brasileira.

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