Quando os últimos acordes rasgados de distorção ecoaram pelo Parque Evaldo Cruz, no Açude Novo, na noite de domingo, a plateia do 51º Festival de Inverno de Campina Grande (FICG) foi ao delírio. No palco, sob o jogo de luzes e a fumaça, os músicos da Dr. Blazh pareciam gigantes intocáveis, encarnando o espírito de lendas como Iron Maiden e Helloween. Mas, na manhã de segunda-feira, a realidade do baterista, do baixista e do vocalista é bem diferente da rotina de um rockstar internacional. O verdadeiro heavy metal de uma banda independente no Nordeste começa quando as luzes se apagam.
Com 12 anos de estrada, a Dr. Blazh conhece bem a engrenagem fria que sustenta o underground. Fazer rock no interior da Paraíba exige uma dupla jornada implacável. Não há roadies de plantão o tempo todo, não há jatinhos fretados, e os cachês, quando existem, raramente pagam as contas do mês. O combustível que move a cena é a abnegação pura e simples.
“Dificuldades a gente enfrenta pra caramba, a começar pela questão de ensaio“, desabafa o vocalista Márcio Lemos, despindo-se da aura de frontman para revelar a rotina de um trabalhador comum. “Aqui todo mundo trabalha, todo mundo tem outras atividades. É muito difícil você viver do rock, viver do metal.“

O malabarismo Geográfico e o relógio
Se conciliar o cansaço do horário comercial com ensaios noturnos já é um desafio, a Dr. Blazh enfrenta um quebra-cabeça ainda maior: a geografia. A banda não está concentrada em apenas uma cidade. Para que um único ensaio aconteça, é preciso sincronizar as vidas de músicos que moram em Campina Grande, João Pessoa e Soledade.
“A gente tem que ficar ali tentando encaixar o ensaio, tentando encaixar o show. Tem músicos aqui que moram fora, e a gente fica tentando gerenciar isso de alguma forma“, explica Márcio. São horas de estrada, pegando a BR-230 depois do expediente, apenas para garantir que o repertório esteja afiado para o próximo compromisso. É um investimento de tempo, dinheiro e energia que poucas profissões exigiriam sem uma garantia de retorno financeiro.
“Infelizmente, gostaríamos de estar no cenário ideal de viver da música, mas a gente não tá nesse cenário. A nossa maior dificuldade é essa: ter que fazer outras coisas para sobreviver“, pontua o vocalista.

Se as contas não fecham, as agendas colidem e a logística é um teste constante de resistência, o que impede a engrenagem de parar? Para o guitarrista Herman Bruno, a resposta está na cola que une o grupo. “Nós temos uma grande vantagem de não ser apenas uma banda com intuito musical. Nós somos todos amigos. Isso fortalece demais e deixa de forma democrática as nossas escolhas, todo mundo aceita numa boa”, explica. Sem guerra de egos, o desgaste do “corre” se dissipa no palco.
Mais do que companheirismo, a escassez de tempo livre exige que cada nota tocada tenha um sentido maior. Fazer arte depois do expediente é um sacrifício que precisa valer a pena. O baixista Renato Teodósio reflete que esse é o norte da banda, especialmente agora, na criação de suas músicas autorais: “A gente seleciona muito bem o que vai passar. Não só em termos técnicos, mas principalmente ideológicos, que envolvam nossos sentimentos. O que nos une é fazer isso por prazer e por amor”.
Esse amor transcende os estúdios e invade o próprio lar dos músicos. A manutenção da banda só é possível porque a família foi incorporada à jornada. No palco do Açude Novo, o alicerce estava ali, na beira da grade. “Eu trouxe minha esposa e meus filhos, o Márcio também trouxe a filha… É uma satisfação gigante poder reunir diversas fases da nossa vida representadas através dos nossos parentes e estar todo mundo aqui reunido num dos locais mais democráticos da cidade”, emociona-se Renato. O verdadeiro sucesso da cena independente, afinal, não é viver da música, mas viver com ela.



Por que continuar?
Diante de um cenário tão árduo, a pergunta que fica para quem assiste de fora é inevitável: por que eles não desistem?
A resposta ecoou na noite de domingo do FICG. Quando uma banda sobe no palco e vê o esforço logístico de meses se transformar em uma roda de amigos, pais e filhos cantando juntos em praça pública, a balança se equilibra. O cansaço da estrada e das planilhas de horário desaparece no instante em que o público reconhece o primeiro riff da guitarra.
Manter uma banda independente na Paraíba é aceitar que o palco é, ao mesmo tempo, o seu refúgio e a sua trincheira. Enquanto houver a amizade que une os integrantes e o respeito de quem bate cabeça na grade, músicos como os da Dr. Blazh continuarão driblando a exaustão para garantir que, em Campina Grande, o rock nunca durma em silêncio.
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