O rock and roll campinense deixou os guetos, os horários ingratos e as garagens apertadas para reivindicar o seu lugar de direito: o palco principal. O último domingo (23) no Parque Evaldo Cruz não foi apenas mais um dia de shows no 51º Festival de Inverno de Campina Grande (FICG); foi a consagração de um movimento estratégico desenhado para imortalizar a cena alternativa no calendário cultural mais nobre da cidade.
A invasão das guitarras no festival é fruto da articulação do produtor e músico Xico Netto. O que hoje arrasta multidões começou como um teste cauteloso. “Há dois anos, foi plantada a semente de trazer o rock para dentro do Festival de Inverno. Mirna Maracajá e a mãe dela, Eneida, compraram a ideia. A gente fez o primeiro ano com uma única apresentação, mas ela viu que tinha potencial e acreditou no rock“, relembra Xico.
Com o sinal verde da organização, o produtor jogou todas as fichas para expandir o projeto. O resultado foi uma maratona de mais de seis horas com oito bandas locais, som e iluminação de primeiro mundo e um parque completamente lotado.

A estrutura que muda vidas
Para os músicos, especialmente os da nova geração, o impacto de tocar em uma estrutura desse porte é transformador. Isaac Furtado, vocalista da jovem banda Calango Morto, resumiu o sentimento de deixar os bastidores marginalizados para assumir os grandes holofotes. “Muitas vezes nos botam para tocar em horários que não são bons. Já chegaram a botar a gente para tocar ao meio-dia, sem ninguém. Estar aqui é uma oportunidade que a gente não esperava ter tão cedo. A iniciativa do festival de trazer o rock para um palco grande, chamando a população inteira, é muito legal“, destacou.
A curadoria de Xico exigiu pluralidade, garantindo que o espaço conquistado fosse democrático. E a estratégia rendeu frutos do primeiro ao último acorde. Herman Bruno, guitarrista da veterana Dr. Blazh, que encerrou a noite, ficou impressionado com a manutenção da força do evento. “O festival abriu esse espaço e a gente viu que, desde a primeira banda às 16h, a energia tava lá em cima. É uma coisa absurda você chegar na oitava banda e tocar pra uma galera com essa energia toda“.

Representatividade e o apelo pelas ruas
Além da vitória estrutural, o palco do FICG serviu como um poderoso palanque para pautas urgentes do cenário underground. Durante a apresentação da Nath Band, a vocalista Natalia aproveitou os holofotes para levantar a bandeira da representatividade feminina. A cantora discursou sobre a importância fundamental de ter mais mulheres ocupando os palcos e bastidores do rock, aproveitando o momento para agradecer publicamente a Xico Netto pela resiliência em manter a cena campinense viva durante todos esses anos.

Esse sentimento de expansão e engajamento também ecoou mais tarde. Em meio ao peso dos riffs de heavy metal, o vocalista da Project X fez um apelo direto à plateia. Ele convocou o público a sair mais de casa para prestigiar a cultura local, expressando o desejo de que o Coletivo Rock cresça ainda mais nas próximas edições, absorvendo novas bandas tanto de Campina Grande quanto das cidades vizinhas.
A consolidação do Coletivo Rock no FICG prova que a cultura de Campina Grande é vasta o suficiente para abraçar o peso do metal. Mais do que entretenimento, o festival entregou dignidade estrutural aos músicos que, durante todo o ano, suam a camisa para manter a cena viva.
Galeria de fotos do Coletivo Rock





















Deixe um comentário