Ex-baixista revela que a falta de embates diretos, a competição velada e o ciúme após destaque em capa de revista foram os estopins para a ruptura da formação clássica.
A convivência em um projeto de sucesso costuma ser romantizada, mas os bastidores frequentemente escondem desgastes que culminam em rupturas. Tavares, ex-baixista da Fresno, detalhou abertamente a escalada de tensão que o levou a deixar a banda. Em entrevista ao podcast Eu Quero Ser Seu Amigo de Novo — produção dedicada à memória do rock gaúcho e da produtora Olelê Music —, o músico fez um diagnóstico rigoroso sobre a dinâmica do grupo, apontando que o choque de egos e um problema inusitado foram fatais: a escassez de brigas.
O princípio da crise, segundo o relato de Tavares, teve um marco editorial: a capa da edição brasileira da revista Rolling Stone. O que deveria representar o ápice do reconhecimento na indústria fonográfica nacional transformou-se em um gatilho imediato para a vaidade interna.
“Quando a gente saiu na capa da Rolling Stone, a banda não gostou muito porque eu ganhei um destaque”, revelou o músico.
Ele esclarece que o espaço conquistado não foi fruto de uma exigência pessoal por protagonismo, mas uma consequência do próprio processo jornalístico da revista. Tavares passou por uma sabatina isolada de quatro horas, na qual abordou temas fora da pauta usual do grupo — como a legalização da maconha —, entregando declarações mais atrativas para o perfil editorial da publicação. O resultado nas bancas gerou um mal-estar velado entre os colegas, inaugurando um clima de desconfiança.

Aprofundando a anatomia do conflito, Tavares apresentou uma visão analítica sobre a cultura interna da Fresno. Citando o documentário dos Ramones, famoso pelos embates agressivos entre os integrantes, ele concluiu que o erro da banda gaúcha foi exatamente o oposto: o excesso de apaziguamento.
A evitação constante de debates difíceis fez com que as divergências profissionais se acumulassem no âmbito pessoal. “O copo começa a transbordar porque nunca se esvazia“, explicou o baixista. A tática de deixar os problemas passarem para evitar o confronto direto acabou criando um ambiente altamente asfixiante, onde comentários sutis machucavam mais do que discussões abertas.

O clima insustentável logo invadiu o território criativo. Tavares relembrou um momento de tensão aguda com Lucas Silveira, líder da banda, evidenciando como os músicos haviam começado a agir como concorrentes dentro do próprio estúdio.
Durante uma cobrança, Lucas questionou o ex-colega sugerindo que o refrão da música “Visita”, composta por Tavares, soava como o refrão de outra canção. A resposta de Tavares expôs a quebra definitiva de alinhamento: argumentou que a sua crítica, na época, era puramente técnica em relação à produção das faixas, e não à qualidade das composições dos colegas, assumindo a responsabilidade por seus próprios trabalhos.
O limite foi alcançado de forma silenciosa e solitária. Durante uma noite de turnê, no interior da van do grupo, o baixista absorveu o peso das dinâmicas que classificou como nocivas à sanidade de todos e tomou a decisão de encerrar o ciclo. “Eu não vou conseguir ficar“, sentenciou para si mesmo, selando sua saída.
A entrevista de Tavares pode ser assistida no link abaixo!
Deixe um comentário