Guitarras na Rainha da Borborema: A fórmula pé no chão de Xico Netto para revolucionar a música independente em Campina Grande

Compartilhar
Compartilhar

No interior da Paraíba, onde o calendário oficial e o imaginário popular parecem gravados ao som da sanfona e do triângulo, manter viva a chama das guitarras distorcidas não é um trabalho para amadores. É uma missão de trincheira. Quando Xico Netto pausou seus passos no meio do burburinho de uma feira livre em Campina Grande para gravar as respostas desta entrevista, o contraste de cenários revelou a essência de sua própria vida: o rock, para ele, não habita um castelo inatingível; ele pulsa no asfalto, na lida diária, no suor de quem precisa desbravar o mato para construir o próprio palco.

Banda Project X – Foto: Arquivo Pessoal

Xico é um homem de múltiplas frentes, o epicentro de uma cena que se recusa a ser silenciada pelas estatísticas. Ele é o guitarrista de olhar focado, o técnico de som que não dorme, o dono do London Pub & Gourmet e a mente por trás do TIP Home Studio e da Pro-Eventos. Mas, antes de se tornar a engrenagem que faz girar o Rock Campina, um dos maiores festivais do gênero no estado, Xico foi apenas um garoto fascinado pelas capas e sulcos dos discos de vinil dos irmãos mais velhos.

Tudo começou de forma muito simples em casa, brincando com instrumentos, querendo replicar aqueles sons“, ele relembra, a voz carregando a textura de quem conta uma história repetida pelos calos nos dedos. Quando comprou seu primeiro instrumento, por volta dos 15 anos, Campina Grande não oferecia mapas para roqueiros. Não havia estúdios equipados ou casas de show de portas abertas para acordes pesados. A marginalização do estilo era palpável. A solução encontrada por ele e seus primeiros companheiros de banda ditou o ritmo de toda a sua vida: bateram na porta da diretoria da SAB (Sociedade de Amigos do Bairro) do Santa Rosa e organizaram os ensaios ali mesmo, conversando com o vigia, ajustando horários, criando a cena a partir do nada.

Essa transição da inocência do garoto que ouvia vinil para a sagacidade do produtor cultural forjou um pragmatismo férreo em Xico. Ele compreendeu cedo que a paixão, sozinha, não paga a conta de luz nem sustenta um legado. “Você não consegue sobreviver fazendo apenas uma coisa. Você tem que ter todo um ecossistema para funcionar“, decreta. É dessa visão lúcida que nasceu seu império de resistência. O London Pub não é apenas um bar; é a raiz que prende a árvore no chão. A Pro-Eventos não aluga apenas caixas de som; ela garante que o timbre seja digno. São raízes interligadas que impedem a árvore do rock campinense de tombar nas estações secas.

A personalidade de Xico repele o deslumbramento. Ele é avesso ao que chama de “frescurinha, ai ai ai e mimimi”. Para ele, a verdade prevalece e o trabalho duro é a única moeda de troca válida. “Tudo que é feito com verdade e com honestidade tende a durar”, afirma. Essa honestidade se reflete na forma como ele gerencia o tamanho dos seus sonhos. Longe da megalomania de tentar replicar festivais de São Paulo ou do Rio de Janeiro sem a mesma base financeira, ele aplica a métrica da realidade: “Não dar o passo maior que a perna”.

Foi essa matemática de pés no chão que permitiu que o Rock Campina, herdeiro espiritual do antigo Corpsing Grinder de 1993, chegasse ao patamar atual. Em 2022, o festival atingiu seu cume ao trazer a banda Angra. Xico se viu diante da maior dualidade de sua vida: produzir um evento épico e, na mesma noite, subir ao palco com sua banda, Project X, para abrir os trabalhos.

A experiência de dividir o palco com estrelas internacionais, como o lendário vocalista Fabio Lione, é descrita por ele como algo “surreal e de arrepiar”. No entanto, a preparação para esse momento de magia revela o peso da responsabilidade que ele carrega. Não houve glamour nos meses anteriores, mas sim uma preparação com rigor militar. “A gente se preparou como se fosse para uma guerra. O cara não tem dificuldade nenhuma, você é que tem que entregar todo o suporte possível para ele ser o alto nível que ele é, sem a gente ser um empecilho”, confessa.

Ele jamais toma para si o crédito solitário das batalhas vencidas. A música, em sua visão de mundo, é indissociável da lealdade. Ao citar companheiros como Cantalice, Kito e Demétrius, Caio e entre outros a palavra “banda” logo é substituída por “irmandade”. E nos bastidores, onde a carga mental costuma ser mais pesada que os amplificadores, a figura de sua esposa, Gleyca Lira — a quem ele chama com devoção de sua “produtora moral” —, atua como o alicerce silencioso que sustenta a estrutura há quase cinco anos.

Hoje, Xico Netto vive o que ele mesmo classifica como “o melhor momento do rock and roll na nossa região”. A maior prova disso atende pelo nome de Coletivo Rock, um braço do seu ecossistema criado com um objetivo claro: invadir o Festival de Inverno de Campina Grande (FICG). Ao abraçar a ideia ao lado das organizadoras do festival, Mirna e Eneida, Xico conseguiu institucionalizar o rock no calendário cultural mais nobre da cidade.

Ver o Coletivo Rock lotar um dos dias do FICG não é apenas um sucesso de bilheteria; é uma vitória ideológica. O princípio de ouro de Xico sempre foi usar atrações de peso para abrir alas para as bandas locais. “O que vai transformar você em um especialista é a experiência, a vivência e o tempo. Só o tempo te dá o discernimento do que você está fazendo de certo e errado”, reflete, olhando para os garotos que hoje têm acesso a informações na internet que, em sua juventude, custavam o preço de uma fita cassete rara.

Para Xico Netto, o rock nunca foi sobre quebrar quartos de hotel ou colecionar excessos. É sobre suor, cabos enrolados, logística de transporte e a teimosia de acreditar que um acorde de guitarra, tocado com verdade no interior do Nordeste, tem força suficiente para ecoar pela eternidade.

Compartilhar

2 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia Também

Como a Noturna Régia exportou o rock gótico de Campina Grande para o Brasil

Com poesia decadente, referências a Augusto dos Anjos e a consagração no...

A dupla jornada da Dr. Blazh: O verdadeiro ‘corre’ para manter uma banda independente na Paraíba

Longe do glamour dos astros internacionais, os músicos do interior nordestino enfrentam...

O marco histórico: Como o “Coletivo Rock” consolidou as guitarras no palco principal do Festival de Inverno

O rock and roll campinense deixou os guetos, os horários ingratos e...

Riffs, mosh e nostalgia: A catarse metálica da Project X no Festival de Inverno

Com um frontman magnético e os solos virtuosos de Xico Netto, a...