Ainda com a adrenalina pulsando após quase duas horas de catarse no Parque Evaldo Cruz, Augusto Arruda desceu do palco do 51º Festival de Inverno de Campina Grande com a sensação de dever cumprido. Mais do que um show, o espetáculo Som da Resistência foi arquitetado milimetricamente para ser uma narrativa sobre a música negra brasileira.
Em entrevista exclusiva nos bastidores, o artista dissecou as motivações que o levaram a construir um repertório tão denso e, ao mesmo tempo, tão festivo. O projeto começou a ganhar vida no início do ano, viabilizado por uma política pública fundamental: a Lei Aldir Blanc. Para Augusto, o palco é o reflexo direto da importância dessas políticas culturais para fomentar, democratizar e ampliar o acesso à arte no país.

A construção de uma narrativa Negra
Na hora de estruturar o que o público ouviria, Augusto não precisou ir muito longe. Ele conta que, naturalmente, buscou em sua própria playlist do dia a dia as grandes referências da música negra para montar o setlist. Com o auxílio de seu amigo Henrique, os dois desenharam uma narrativa visual e sonora que contasse a história da música brasileira através de seus maiores ícones.
Mas engana-se quem pensa que o objetivo era apenas o entretenimento. “A arte tem que ser uma forma de você, claro, celebrar a vida, celebrar sorrisos, ser feliz, dançar, mas também tem que fazer um movimento na sociedade”, reflete o cantor, destacando a necessidade de trazer uma forte crítica social para o meio da praça.
O peso histórico de “A Carne”
Foi exatamente essa necessidade de crítica que culminou no momento mais arrepiante da noite: a execução de A Carne. Questionado sobre a energia visceral daquela interpretação, Augusto explicou a engenhosidade por trás da letra eternizada por Elza Soares.
Embora a composição original de Seu Jorge afirme que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, Augusto pontuou que Elza Soares alterou genial e propositalmente o tempo verbal da canção para “a carne mais barata do mercado foi a carne negra”. Essa mudança, segundo ele, traz à tona todo o contexto histórico da escravidão e levanta o debate sobre as reparações históricas, como as políticas de cotas.
Para Augusto, cantar A Carne hoje é ecoar um grito de repúdio contra o racismo que o Brasil ainda enfrenta em pleno 2026, enfrentando-o de frente e sem meias palavras.

A unidade do underground campinense
Além do tributo aos gigantes nacionais, o espetáculo foi marcado pelo reconhecimento da própria cena local. Augusto confessa, com muita humildade, que não possui o talento nato da composição, mas que encontra sua realização na arte de interpretar.
Essa devoção ao palco fica ainda maior quando se é aplaudido pelos pares. O cantor fez questão de celebrar a presença de grandes nomes da música da cidade que estavam na plateia o assistindo, como Capilé, Alex Brasil, Lucas Barreto e Pedro Haus, entre tantos outros.
Para Augusto Arruda, o saldo final de colocar o Som da Resistência na rua deixou uma lição clara: a arte perde todo o seu sentido se não for construída sob esse sentimento genuíno de unidade, de dar as mãos e de bater palmas para a história de cada um.
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