As luzes do palco principal do Parque Evaldo Cruz ainda não haviam se acendido completamente quando o telão deu o recado: imagens de Preta Gil, Gilberto Gil, Elza Soares, Tony Garrido e Dona Onete preencheram o fundo do cenário. Quando os primeiros acordes de Olhos Coloridos rasgaram a noite do 51º Festival de Inverno de Campina Grande (FICG), o público já sabia que não estava ali apenas para um show. Aquela noite seria uma aula magna sobre a potência da música negra brasileira.
Sob o comando de Augusto Arruda, o espetáculo batizado de “Som da Resistência” iniciou às 20h50 e, por quase duas horas, transformou a praça pública em um verdadeiro santuário da nossa ancestralidade. “Seria impossível eu fazer um tributo à música brasileira se eu fosse só por um caminho, um único estilo musical. A gente passeou pelo samba, teve homenagem junina, teve axé, teve um bloco de soul“, explicou o cantor nos bastidores, logo após descer do palco.


Do Soul ao Sertão
A pluralidade do repertório confirmou a tese de Augusto de que Campina Grande é um celeiro inesgotável da música nacional. E para provar que a resistência também se faz em casa, um dos momentos mais aplaudidos foi a homenagem a Cassiano, o lendário compositor nascido no bairro do José Pinheiro, em Campina Grande, que imortalizou clássicos na voz de Tim Maia nos anos 1970.
Transitando com maestria entre o soul e a MPB, Augusto entregou interpretações de Me Dê Motivo e Primavera, além de revisitar pérolas como Sinais de Fogo, canta por Preta Gil, Lilás de Djavan e a contemporânea Talismã da cantora Iza. A versatilidade da banda brilhou ao transformar o Lamento Sertanejo de Luiz Gonzaga em uma fusão pesada de reggae, evocando a energia d’O Rappa, até desembocar no furacão baiano de Lucro (Descomprimindo), do BaianaSystem.
Mas além do suingue, havia um recado claro. Em suas falas, Augusto fez questão de exaltar a importância do acesso irrestrito à arte e o papel fundamental das políticas culturais, como a Lei Aldir Blanc, que fomentou a construção estrutural de seu projeto.

“A Carne”: Um grito contra o racismo
Se o show foi uma celebração, o ápice cênico e emocional foi de confronto. Ao anunciar A Carne, composição de Seu Jorge imortalizada pela deusa Elza Soares, Augusto entregou uma versão roqueira, densa e visceral, dedicada abertamente à luta contra o racismo estrutural no Brasil.
Na entrevista, o artista dissecou o peso desse momento: “A Elza Soares mudou o tempo verbal da música. A original dizia ‘A carne mais barata do mercado é a carne negra’, e ela passou a cantar ‘A carne mais barata do mercado foi a carne negra’. Ela traz o contexto da escravidão e das reparações históricas, como as cotas“, analisou Augusto. “A carne tem essa perspectiva de ser um grito, uma música de repúdio contra tudo aquilo que a gente ainda enfrenta neste país em pleno 2026“.
Enxergar o Parque Evaldo Cruz com rostos conhecidos foi a coroação de um artista que respira a cidade. Augusto não escondeu o orgulho de dividir a glória com seus pares. Da beira do palco, ele celebrou a presença de figuras carimbadas da música paraibana que o assistiam na plateia, como Capilé, Lucas Barreto, Pedro e Alex Brasil.
“É muito gostoso estar ali num palco e ver grandes amigos. A arte não tem sentido se não for esse sentimento de unidade mesmo, das pessoas se darem as mãos e celebrarem a história de cada um”, emocionou-se o artista.
Quando o relógio já marcava 22h30, o público se recusava a arredar o pé. Convocado de volta, Augusto transformou os minutos finais em um verdadeiro carnaval, disparando Faraó da Margareth Menezes, Taj Mahal de Jorge Ben Jor e a energia de Dona Onete, cedendo ainda a um último pedido dos fãs antes de fechar as cortinas.
Antes de se despedir, ele cravou a frase que resumiu a catarse da noite: “Eu sou Augusto Arruda e sou o Som da Resistência”.
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