O placar de 1 a 0 a favor do Treze contra o São José-RS, no Estádio O Amigão, mascarou uma partida de recortes muito distintos. Para o torcedor que acompanhou o duelo, a sensação final de frustração não passou apenas pela eliminação nos pênaltis, mas pelo que o time deixou de fazer no tempo normal após um início avassalador.
A leitura tática e o desenho gráfico do ritmo (momentum) da partida contam uma história clara: o Treze foi vítima da própria ineficiência nas finalizações, do bloqueio psicológico em casa e, sobretudo, de um apagão nos refletores que drenou a energia coletiva da equipe no seu melhor momento.

Os 15 minutos de “amasso” e o auge alvinegro
O apito inicial revelou um Treze disposto a engolir o adversário. Os 15 minutos iniciais foram um verdadeiro monólogo do Galo da Borborema, que empurrou o São José-RS para as cordas sem dar qualquer chance de respiro. Foi neste recorte que brilhou a estrela do meio-campista Marquinhos, o grande motor ofensivo da equipe. Destaque da partida como um todo ele coroou a pressão logo aos 9 minutos, balançando as redes para incendiar os quase 18 mil torcedores. Além do gol, Marquinhos foi um leão na articulação, vencendo 16 duelos no jogo e garantindo 77% de precisão nos passes.
O domínio era tão absoluto que, aos 14 minutos, a arbitragem chegou a assinalar um pênalti para o Treze. O estádio veio abaixo com a chance real de liquidar a fatura cedo. Contudo, a revisão do lance transformou a penalidade em uma falta fora da área. Esse momento marcou a primeira quebra na sequência de euforia, com a intensidade alvinegra apresentando sua primeira queda leve.
O Apagão duplo e o respiro gaúcho
Se o pênalti anulado foi um freio, o que aconteceu a partir dos 20 minutos agiu como um verdadeiro balde de água fria. Justo quando a equipe de Adriano Souza tentava retomar a pressão, os refletores do Amigão falharam.
A primeira paralisação esfriou imediatamente os músculos e a adrenalina dos atletas. Aos 29 minutos, após uma “falsa volta”, um segundo apagão destruiu de vez a concentração e a fluidez tática do Treze. O gráfico de intensidade da partida no miolo do primeiro tempo despencou para níveis mínimos.
O tempo que a bola ficou parada serviu como um inestimável “tempo técnico” para o São José-RS, que estava sendo amassado, conseguir reorganizar suas linhas defensivas e acalmar os nervos. Quando a bola rolou definitivamente aos 36 minutos, o Treze até voltou a atacar, mas a eletricidade inicial já não existia. A equipe gaúcha já estava encaixada e a janela de instabilidade adversária havia se fechado.

Destaques defensivos e a falta de uma liderança em campo
Apesar do ritmo ofensivo ter caído, a equipe paraibana sobrou nas estatísticas, controlando 58% da posse de bola, trocando 231 passes certos (contra 129 do adversário) e finalizando 14 vezes contra apenas 8 dos gaúchos.
O controle da partida no segundo tempo passou diretamente pela solidez impressionante da zaga. Matheus Barbosa foi o nome do jogo defensivamente, vencendo incríveis 14 duelos, além de registrar interceptações cruciais. Ao seu lado, John Lessa garantiu segurança e qualidade na saída de bola, acertando 84% de seus passes. No meio, Vinicius Michelon ditou o ritmo, com 30 passes certos na distribuição.
No entanto, faltou algo que os números não conseguem medir: liderança mental. Nos momentos em que o apagão esfriou o jogo, o Treze careceu de uma figura de imposição dentro de campo — alguém que chamasse o grupo, mantivesse o nível de concentração alto e blindasse o ímpeto construído. Em temporadas recentes, como em 2024, figuras de bastidores como o goleiro reserva Andrade exerciam esse papel. Desta vez, o vácuo de uma voz de comando em meio à escuridão cobrou seu preço.
O revés reflete uma fragilidade que tem sido a “pedra no sapato” do Galo nos últimos anos: o fator psicológico atuando sob seus domínios em jogos de altíssima tensão. Fica a lição para a diretoria e comissão técnica: para 2027, o planejamento precisará contemplar não apenas a montagem de um elenco técnico e físico, mas de um grupo mentalmente blindado para resistir aos “apagões” — literais e figurados — do futebol.
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