Eram quase 20h de um domingo que já estava cravado na história de Campina Grande quando a Project X pisou no palco do 51º Festival de Inverno (FICG). Se o evento até ali já era um atestado da diversidade da cena independente, o que se viu na penúltima apresentação da noite foi um verdadeiro rito de passagem para qualquer fã de som pesado. O Parque Evaldo Cruz não apenas tremeu; ele ferveu em meio ao mosh que se formou durante as musicas, coros ensurdecedores e uma entrega visceral que poucas vezes se vê fora das grandes arenas.

Bebendo direto da fonte dos gigantes, a Project X entregou uma ode ao metal clássico. A banda foi conduzida por um vocalista em estado de graça, um verdadeiro frontman que, com técnica vocal apurada e carisma transbordante, comandou a multidão com a facilidade de um maestro. O público comeu na palma da sua mão enquanto o grupo despejava pedradas imortais de bandas que ajudaram a moldar o gênero, como Judas Priest e Angra.
A reverência à “Donzela de Ferro” foi um dos pontos altos do setlist. A execução precisa e furiosa de clássicos como The Trooper e The Evil That Men Do transformou o local em um mar de headbangers, abrindo rodas classicas e provando que o legado do Iron Maiden corre solto nas veias do Nordeste.

Mas o show da Project X carregava um peso emocional extra. Nas guitarras estava Xico Netto, o nome por trás de toda a articulação que colocou o Coletivo Rock dentro do festival. Depois de passar o domingo inteiro nos bastidores, resolvendo pepinos de produção e garantindo que o som de todas as bandas estivesse impecável, foi no momento em que plugou sua guitarra que a verdadeira magia aconteceu.
“Sinceramente, são realizações diferentes. Quando eu subo no palco, eu viro a chave, entendeu? É como se eu desligasse o produtor dentro de mim e entrasse o músico“, confessou Xico, visivelmente emocionado após o show.

Esse transbordamento de emoção ficou nítido no palco. Em um dos momentos mais antológicos da noite, o guitarrista assumiu o centro dos holofotes para um solo rasgado, melódico e cortante de No More Tears, de Ozzy Osbourne. A atmosfera densa do Príncipe das Trevas serviu como cama perfeita para o que viria a seguir: uma transição arrepiante para The Show Must Go On, do Queen, cantada pelo publico presente, em um momento de pura catarse coletiva.
Para Xico, aqueles minutos traduziam o propósito de toda a sua luta cultural: “Aquele palco é o meu momento. É o meu momento com o meu interior, com a minha música e com meus amigos ali. Desfrutar daquilo e ver a galera curtindo, dando respaldo ao que a gente tá fazendo, é muito massa. A gente sabe que tá indo no caminho certo“.
O desfecho épico a um clássico da TV
Se a apresentação já beirava a perfeição para os puristas do heavy metal, a Project X guardou uma carta na manga que estourou a bolha e incendiou a memória afetiva de todo mundo que cresceu nos anos 90 e 2000.
Em vez de encerrar com mais um peso tradicional, a banda evocou a energia do power metal oriental e disparou Pegasus Fantasy, a icônica abertura do anime Cavaleiros do Zodíaco (na versão consagrada por Edu Falaschi). O impacto foi instantâneo: camisas pretas abraçaram a nostalgia, crianças que estavam nos ombros dos pais pularam e o parque inteiro virou um imenso karaokê a céu aberto.
“A gente encerrou com um clássico dos animes que marcou várias gerações. Você viu que a galera foi ao delírio, né?“, resumiu o guitarrista.
Ao fim da apresentação, a sensação que pairava no Açude Novo era uma só: a Project X não apenas tocou os clássicos, mas inscreveu o seu próprio show na prateleira dos momentos inesquecíveis do rock campinense e tambem do festival.








Deixe um comentário