O Festival de Inverno de Campina Grande (FICG) viveu uma noite de catarse e profunda reverência à arte regional. Como atração surpresa aguardada com grande expectativa, Chico César entregou um espetáculo que foi muito além de um simples desfile de sucessos, transformando o palco em um espaço de exaltação à identidade nordestina, inclusão e memória aos ícones da nossa cultura.
Um dos momentos mais sensíveis da noite ocorreu quando o artista interpretou os versos da música A Nossa Canção de Vanessa da Mata. Em uma demonstração poética de inclusão, Chico César executou a Língua Brasileira de Sinais (Libras) enquanto cantava, trazendo a música para todos de forma tátil e visual. O compromisso com a acessibilidade não parou por aí: ele fez questão de agradecer publicamente o trabalho dos intérpretes Lery Stone e Rafaela.

A sinergia com o público atingiu o seu grau máximo em “Deus me proteja”. A faixa, que transcendeu gerações e furou a bolha da internet recentemente, foi cantada a plenos pulmões pela multidão. Emocionado com a recepção, o cantor expressou sua gratidão à plateia, destacando a presença massiva, participativa e inteligente dos fãs que abraçaram o festival.
Tributo aos mestres
O roteiro do show foi cuidadosamente costurado para reverenciar as grandes referências que moldaram a musicalidade do cantor. Chico César fez questão de homenagear seus ídolos, citando o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença como o primeiro de seus grandes mestres.
A celebração da música nordestina ganhou ainda mais força com uma performance de tirar o fôlego de “Admirável Gado Novo” (também cantada em coro como Vida de gado), de Zé Ramalho. O desfecho da canção culminou no grito de “Viva a Paraíba!”, ecoado fervorosamente por todo o evento. O trânsito por diferentes vertentes musicais também marcou a noite, com repertório que incluiu citações e canções do maranhense Zeca Baleiro e da banda santista Charlie Brown Jr.

Com uma relação histórica com o FICG que remonta à sua juventude, Chico César usou o microfone para sublinhar a vocação criativa da cidade. Antes de entoar uma canção dedicada ao município, reverenciou o mestre Bráulio Tavares e definiu Campina Grande como um verdadeiro reduto de poesia.
O reconhecimento estendeu-se às figuras fundamentais que sustentam os pilares da arte na região. Eneida Agra Maracajá e Mirna Maracajá receberam uma homenagem honrosa no palco, sendo cravadas pelo artista como “heroínas” incansáveis na linha de frente da defesa da cultura paraibana, nordestina, brasileira e latino-americana.

Chico César encerrou o ciclo de agradecimentos valorizando aqueles que fazem o espetáculo acontecer longe dos holofotes. Agradeceu nominalmente aos profissionais técnicos Edu Garcia e Evaldo Luna (som), Roma Muniz (luz), e aos roadies Adriano Colono, Big e Breno Felipe. O momento de gratidão à produção virou festa quando o cantor lembrou do aniversário de Sil Ribas, cantando parabéns junto ao público.
Ao misturar a força dos ritmos nordestinos, o cuidado com a inclusão e o respeito irrestrito aos seus pares e mestres, Chico César escreveu mais um capítulo irretocável na história do Festival de Inverno de Campina Grande.
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