O Treze Futebol Clube tem se consolidado como uma verdadeira potência nas categorias de formação do futebol paraibano. O reflexo desse trabalho é matemático: nos últimos anos, o Galo da Borborema alcançou seis finais de base, conquistando três títulos (Sub-13 em 2025, Sub-15 em 2025 e o recente Sub-20 em 2026) e três vice-campeonatos (Sub-15 em 2023, e Sub-17 em 2022 e 2024). No entanto, o grande desafio de qualquer clube formador não é apenas levantar taças nas categorias inferiores, mas conseguir fazer a transição desses talentos para o futebol profissional com segurança.
Para o técnico Adriano Souza, esse é um dos momentos mais críticos e delicados na gestão de um elenco. O treinador abriu o jogo sobre os bastidores dessa transição, destacando a necessidade de cautela extrema ao lançar jovens jogadores, especialmente em cenários de instabilidade ou pressão desproporcional.

O “processo educacional” e o risco de queimar ativos
Um dos pontos mais contundentes da visão do treinador é a ausência de um “processo educacional” no ambiente do futebol. Segundo Adriano, falta compreensão por parte da torcida, da imprensa e, muitas vezes, internamente nos clubes, de que o jovem atleta ainda está em pleno desenvolvimento técnico, tático, físico e maturacional. O erro faz parte dessa evolução.
No entanto, a cultura do imediatismo cria um ambiente de insegurança. O técnico alerta que expor um garoto precocemente em momentos de alta pressão ou de crise na equipe principal pode ser fatal para a carreira do atleta. Ao cometer uma falha que resulte em derrota, o jovem corre o risco de ser sumariamente e injustamente rotulado como “descartável”.
Para o comandante alvinegro, o papel do gestor é ser um escudo. “Sacrificar” um talento por conta de uma expectativa irreal ou por submetê-lo a um ambiente hostil não é apenas uma falha técnica, mas um grave erro administrativo. Jogadores da base são ativos valiosos do clube, e expô-los ao “fogo cruzado” significa desperdiçar potenciais retornos esportivos e financeiros em vendas futuras.
O estudo de caso na Série D: Marcos e Gabriel Feitosa
Para ilustrar o perigo dessa transição e a impaciência do ambiente externo, Adriano Souza relembrou um episódio marcante ocorrido durante o Campeonato Brasileiro da Série D deste ano de 2026.
Com o Treze já classificado em primeiro lugar do grupo, o treinador decidiu poupar parte da equipe e mandou a campo uma formação mista, criando um cenário que julgava minimamente organizado para inserir dois garotos da base: o goleiro Marcos e o atleta Gabriel Feitosa.

Apesar de ser um cenário teoricamente favorável (com a classificação já garantida), a derrota no jogo gerou um ambiente turbulento. O goleiro Marcos não teve uma de suas melhores atuações, o que inflamou os ânimos. O grande problema, segundo Adriano, foi o efeito colateral: Gabriel Feitosa fez uma partida que o técnico classificou como “excelente”, mas o desempenho brilhante do jovem foi completamente ofuscado e engolido pelo resultado negativo e pela reação das arquibancadas.
“O Gabriel fez uma partida excelente, fez um grande jogo e foi ofuscado pela derrota. E no final o que se viu foi que o Treze perdeu e, mesmo naquele momento já classificado, aquilo virou um tumulto junto à torcida” relembrou o técnico.
O episódio reforçou a convicção do treinador: lançar atletas da base exige um ambiente não apenas organizado, mas preferencialmente em momentos de alta positividade e mínima oscilação, justamente porque o ecossistema do futebol ainda não sabe lidar com o processo de maturação da base.

A estratégia de inserção gradual e o futuro
A cartilha de Adriano Souza para o sucesso dessas “joias” envolve paciência e inserção gradual. A estratégia passa por aumentar a minutagem desses jovens nos treinamentos com o elenco principal, dando a eles mais atenção e convívio com a intensidade profissional. É o caso do próprio Gabriel e de outros garotos que, após esse período de maturação interna, devem ocupar espaços de maior protagonismo e resposta na próxima temporada.
Essa visão de cuidado com a base vai além dos muros do Estádio Presidente Vargas. O treinador faz um alerta sobre a sustentabilidade do futebol paraibano como um todo. Embora o Campeonato Estadual venha elevando seu nível de competitividade, os clubes só conseguirão se manter a médio e longo prazo se esse equilíbrio for refletido no investimento e na responsabilidade com as divisões de base, gerando negociações e formando atletas de alto nível.
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